1. Como é:
viver essa dualidade,
de estar absorvida em mim mesma e,
ao mesmo tempo,
me observar de fora?
Nem sempre é possível escolher.
Há tarefas do cotidiano que devo executar e,
fazer parte deste mundo, tal qual ele se encontra hoje,
demanda uma série de compromissos e posturas,
conflitantes com o ideal de vida que almejo.
Nesta situação onde as tarefas devem ser cumpridas, não há envolvimento, não sou absorvida pelos acontecimentos e há sempre dispêndio maior de energia, pois o esforço para cumprir uma obrigação é sempre maior do que a realização prazeirosa. E ainda fica a sensação de que isso poderia ser diferente se o mundo fosse diferente…
Ou seja, não é possível existir apenas eu comigo mesma…
há sempre algo de fora
que configura um determinado estado de espírito.
Vai depender do que o exterior está demandando para chegar no tipo de envolvimento que terei comigo mesma e com a atividade que estou executando.
a. estar envolvido/absorvido
Entrar em um processo que envolva, absorva, leva um tempo… há um momento de observar de me inteirar do assunto, “aclimatar”, sentir, perceber e depois decidir se vou me envolver, se vou me deixar levar.
…percebo que as idéias aparecem mais rápido do que as palavras, e entenda-se por idéia: sensações, emoções, anseios… É que as palavras demoram mais a vir do que as idéias… para acompanhar o pensamento, ou o fluxo que se instalou, melhor colocar a 1ª palavra que surge e depois procurar outra mais precisa.
b. me observar de fora
Posso descrever-me de fora a partir de minha observação genérica sobre como reajo em situações genéricas, ou seja, observo/recordo ações passadas e delineio alguns traços de como me “comporto”.
No entanto, observar-me no momento em que estou envolvida com uma atividade/processo é outra coisa… não dá pra falar à distância, portanto tentarei descrever como me vejo neste momento exato em que estou a elaborar este texto…
O cenário – a partir de mim –
vai se ampliando e ampliando até chegar ao coletivo e,
logo em seguida já percebo que devo adotar um método para conseguir concluir esse texto
ou vou me emaranhar numa teia (rede?) de assuntos que ficará completamente anárquica
… sem conseguir concluir algo apresentável.
Portanto, observar-me enquanto executo este trabalho tem a capacidade de fazer-me perceber o quanto estou envolvida/ absorvida por ele a ponto de começar a “viajar” com todas as idéias que surgem… e, por mais que as idéias fluam, o eu que está observando tenta dar um break nesse… caos? para o qual o eu-envolvido está se dirigindo… e nessas (talvez) o eu-observador já tenha ido por água abaixo pois ele já não está mais observando e sim se envolvendo com o processo… difícil ser observador em um processo envolvente!
c. estar em relação/ relacionando-me com o outro
No início de nossas vidas, o outro não surge segundo nossa escolha consciente: a família.
No entanto, o tipo de relacionamento que terei
com cada membro da família e, posteriormente, com todos os outros que surgirem,
terá a minha marca pessoal.
As minhas relações serão sempre configuradas a partir de alguns parâmetros que tenho como características de traços pessoais.
Quando me relaciono com o outro
desenvolvo minha capacidade de observação
pois, a percepção da individualidade me coloca em situação de observador do outro
para que eu possa entende-lo e interagir
… na verdade, devo interagir para poder entender
… é uma via de 2 mãos.
E quando, por causa do outro, desenvolvo meu olhar,
posso olhar-me também. Impossível evoluir, crescer sem o outro!
d. perceber o outro e suas necessidades
Não dá prá dizer quando começou, mas enxergar o outro como um igual, independente de raça, credo, posição social é a minha base e, novamente, entro na questão das escolhas e perspectiva de vida, pois a forma como percebo o outro me colocará em uma determinada direção em minha vida. Se o outro é um igual, é natural que eu dispense a ele – dentro dos limites individuais - o mesmo cuidado que dispenso a mim e é então que o outro aparece como a grande mágica da vida: apesar dele ser um igual ele é outro. Sei que, dentro dos padrões, as necessidades do outro são as mesmas que as minhas, mas da perspectiva do indivíduo único, com uma alma, um espírito, ele tem necessidades que podem ser iguais ou podem ser diferentes das minhas.
O outro pode ser um modelo ou, melhor, uma referência e isso também é uma grande mágica nas minhas relações com o que está fora de mim.
Mas a mágica maior está na potencialização das minhas capacidades quando me junto com outro com um objetivo comum. E é aí que terei, de fato, que ir até o fim no entendimento do todo: eu-eu/ eu-outro / eu+outro em um processo que nos ajudará a avançar em nossa perspectiva (individual) de vida.
2. Qual é minha perspectiva de vida? Quais são minhas motivações?
Motivação vem de dentro e também de fora, por isso é difícil me ver absorvida em mim sem que haja algo fora de mim no qual eu esteja inserida.
Não dá pra definir exatamente quando começou a se delinear a idéia de viver na direção de uma perspectiva mais ampla, para além das necessidades do dia-a-dia.
Hoje me é possível entender que minha alma se sente mais confortável se agir segundo alguns princípios que levam em conta o meu bem-estar (físico e psíquico) e também (já que está na base) o bem-estar do outro (que juntando todos dá no tal do coletivo, coletividade) e ainda, em perspectiva, o bem-estar dos que vierem depois de mim.
Tal escolha (agir dentro de princípios) pode levar-nos a adotar diversos sistemas de crenças que, ao longo da vida, podem ser trocados (replaced) mas cujas marcas seguirão para sempre conosco. Ou seja: hoje, o meu sistema de crenças pode ser x, y ou z, no entanto, minha postura diante da vida, do que almejo construir ao longo dela, terá sempre um pouco de cada um dos sistemas de crenças pelos quais optei em determinados momentos passados de minha vida.
3. E meus sentimentos? Ansiedades, desejos, medos, etc.
Eu dizia lá no início que há tarefas do cotidiano que são executadas com uma certa contrariedade. Pois bem, é neste ponto que me dou conta que a minha perspectiva de vida inclui viver em um mundo diferente deste que se configura na realidade do dia-a-dia, portanto, minha perspectiva de vida me coloca em conflito com o mundo (que também é o outro, o que está fora de mim).
Então sou um ser constantemente em conflito? Não. Nos momentos limítrofes de conflito - aqueles em que pensei ter entrado definitivamente no insolúvel absoluto, que inviabilizaria viver neste mundo tal qual se encontra – algo se mobilizou internamente de forma a me conduzir a uma porta através da qual pude atravessar levando toda a minha bagagem de vivências anteriores para continuar a trilhar o caminho na direção da “vida ideal/ mundo ideal”, seguindo sem abrir mão de minhas motivações e sonhos, com possibilidade de olhar de uma perspectiva diferente…
Só não tenho muita certeza se essa porta é que devo chamar de “sistema de crenças”… me parece que não. Parece que o sistema de crenças vem junto com a perspectiva de vida… talvez ainda não tenha muito claro o que seria o sistema de crenças.
4. Como penso/vejo/sinto o coletivo?
Além desse outro, com quem posso compartilhar minha perspectiva de vida e até caminhar junto, há também o outro que se apresenta em direção completamente oposta à qual caminho.
No entanto, minha postura diante do outro genérico não deve mudar pois ainda assim ele é um igual (a minha base)e , no padrão, ele tem as mesmas necessidades que as minhas… Talvez eu possa tentar estabelecer um outro nível de envolvimento, mas será que consigo? Tal postura seria levar às últimas consequências os valores que prezo versus um bem-estar imediato, versus os instintos regidos apenas pela emoção… sem “razão”.